Na Imprensa


Àrvores (Museu de Lanifícios) - ler texto de Manuel da Silva Ramos

Texto do Jornal do Fundão, em Junho de 2016.

As Árvores Fortes da Cecilia

HÁ ARTISTAS assim. Durante muitos anos não se revelam e de um momento para o outro surgem singulares e já com uma intensidade que os caracterizará toda a vida. Cecília Duarte pertence a esta gama de criadores imprevisíveis que outrora foram latentes. Nesta categoria de artistas inesperados, realce se dá a todos os pintores da arte bruta e, principalmente, àqueles que levaram esta arte espúria à suprema incandescência ou à volumosa loucura.

Artistas como Wolfli, Aloise, Josef Wittlich, Séraphine de Senlis, etc. Pintores assim denominados por Jean Dubuffet que os descobriu e os estatuiu num museu na Suíça. Assim se dava importância a artistas desleixados, esquecidos, marginais, isto é, fora do cânone. Cecília é autodidacta como Séraphine, que foi criada numa casa de burgueses e que no final da vida esteve internada num hospital psiquiátrico. E à semelhança desta que pintava com tintas Ripolin ( tintas de acabamento para fachadas, paredes e tecto, isto é, tintas industriais) Cecília usa materiais menores quotidianos. Jean Dubuffet, que criou pois o museu de arte bruta de Lausanne, qualificou esta arte como « o activo desenvolvimento do pensamento individual».

E se tivesse visto as obras de Cecília Duarte teria gostado porque esta artista com uma forte personalidade de rebeldia e heterodoxia, está na linha dos artistas poéticos amaldiçoados que fazem da solidão uma forma absconsa de criação. Diga-se que no final das suas experiências de vida, a arte redime-os. Nesta primeira grande exposição individual na Real Fábrica Veiga, na Covilhã, e que Cecília Duarte considera a mais importante que fez até hoje, lá estão patentes ao público coisas belas, estranhas e poderosas. Só pelos cinco quadros que representam árvores esta mostra merece ser visitada.

São árvores maravilhosas que a pintora descobriu no bairro onde mora em Lisboa, o de Benfica, e que colocou na tela com uma sensibilidade invulgar aliada a um cromatismo puro e prevalecente. É, por exemplo, um medronheiro nos açambarca e nos engole os olhos até ficarmos deslumbrados por muito tempo. É o sonho-árvore em que as árvores são fortes e que se despem quando está frio e cujos ramos podem ser palavras inundadas. A árvore que é o profeta do presente pode ser o mestre do futuro com a sua resiliência própria. Ao confessar-nos em Lisboa a sua paixão desmesurada por árvores « no futuro só pintarei árvores», Cecília Duarte posiciona-se muito bem, ao lado dos grandes pintores da monomania como o Hokusai das vagas gigantescas ou o Goya de “ Los Caprichos”. Podem ser árvores de Benfica, ou do parque de Monsanto, ou do mundo, mas esta propensão exagerada será a gloriosa poesia de Cecília Duarte. E nós aplaudimos a coragem.

Mas nesta exposição cheia de surpresas, há outras telas de que gostámos muito. “ Flores para a avó” que é um acrílico sobre tela, tem também cores magníficas –uma combinação subtil entre o branco, o ocre e o cor de rosa. Um quadro surreal é aquele intitulado “ Posso acabar com as cores”, onde se revela a iconoclastia típica da pintora. A originalidades dos materiais foi outra aposta aqui consubstanciada: areia espalhada, arroz colado, renda pintada, e até cinza de cigarro. Como também o formato original das telas pois muitas telas são redondas. Diz a pintora que os bicos dos quadros magoam as crianças e ferem os olhos aos adultos. Neste arsenal de surpresas, às tantas deparamo-nos com uma árvore-cravo e com o regresso às raízes, à infância em Unhas da Serra, com as suas neves imponderáveis.

Gosto da pintura da Cecília Duarte pelo seu lado naif e inocente, brutal e poético, deliciosamente abrupto, longe dos discursos angelicais. Gosto do seu autodidactismo feroz que é o apanágio dos inventivos que atravessam a vida com o sonho permanente da criação estampado nos olhos exaltados da sinceridade. Com a sua personalidade franca e forte e com a sua exigência cromática, esta pintora beirã e lisboeta só pode produzir o efeito borboleta. E se a borboleta poisar sempre nas árvores ainda melhor. Como Douanier Rousseau que era caixeiro ou Séraphine de Senlis que era criada, Cecília Duarte nasceu para os lados humildes. O seu pai era tecelão na Penteadora de Unhais. Foi para Lisboa estudar economia e gestão para o ISEG mas nunca se formou. Casou e tem dois filhos e foi com eles, ao fazer os seus trabalhos, que nasceu para a pintura. Nunca mais parou. « O meu caminho na pintura é este: tentar registar o que me encanta e, ao surpreender-me, ficar feliz», diz-nos finalmente a pintora, na esplanada da Mexicana. Com todo este programa no albornoz, é já meio caminho andado para qualquer explosão lírica. Mas desde já, considero a Cecília Duarte uma verdadeira revelação, em todos os sentidos.

Manuel da Silva Ramos in Jornal do Fundão 18 de Julho de 2016